Turma 101 revisita colegas da Cidade de Deus 30 anos depois

Wagner Novais apresenta Turma 101 no Festival do Rio 2026. Foto: Claudio Andrade

Uma fotografia escolar tirada há três décadas na Cidade de Deus deu origem a uma busca por pessoas, memórias e histórias atravessadas pelo tempo. Esse é o ponto de partida de Turma 101, documentário de Wagner Novais que teve sua première mundial nesta sexta-feira (2), no Festival do Rio 2026. O longa integra a Competição Novos Rumos da Première Brasil e disputa espaço entre oito produções selecionadas para a mostra.

Diretor, roteirista e professor de cinema, Wagner esteve no Cine Gávea para apresentar pessoalmente o projeto. No filme, porém, ele também ocupa um lugar íntimo dentro da história. Nascido e criado na Cidade de Deus, o cineasta parte da própria experiência como ex-aluno para procurar os antigos colegas da Turma 101.

A produção acompanha o que aconteceu com aquelas crianças depois que a fotografia foi feita. Ao reencontrá-las já adultas, o documentário percorre trajetórias marcadas por desigualdade, sobrevivência e perdas. Além disso, o retorno à antiga escola abre espaço para confrontar aquilo que permaneceu, aquilo que desapareceu e as mudanças vividas pela própria comunidade.

Uma fotografia transforma memória em cinema

A origem de Turma 101 está justamente em uma imagem do passado. Trinta anos depois do registro escolar, a fotografia reapareceu em uma rede social e colocou Wagner novamente diante dos colegas de infância. A partir daí, nasceu a busca que estrutura o documentário.

No entanto, o filme não se limita a localizar quem estava naquela foto. Ao retornar à escola, Wagner também encontra as crianças que ocupam hoje aquele espaço. Dessa forma, passado e presente começam a dialogar dentro da narrativa.

O reencontro dos ex-alunos culmina na recriação da antiga fotografia. Nem todos, porém, puderam retornar. O filme também preserva a memória daqueles que morreram ao longo dessas três décadas. Com isso, a nova imagem passa a carregar tanto as presenças quanto as ausências da Turma 101.

Durante o desenvolvimento, o projeto já era apresentado como um documentário afrofuturista. A proposta combina memória, realidade e imaginação para olhar não apenas para aquilo que aconteceu, mas também para os futuros possíveis de uma comunidade frequentemente retratada pelo cinema apenas por meio da violência e da ausência. A Globo também descreve o longa como uma obra que mistura documentário, ficção e estética afrofuturista.

Turma 101 levou três anos do desenvolvimento à première

O caminho até o Festival do Rio começou bem antes da primeira sessão. Em 2023, ainda em desenvolvimento, Turma 101 participou do Brasil CineMundi, encontro de coprodução realizado durante a CineBH. Na ocasião, o projeto venceu o Prêmio DocSP, garantindo participação nas rodadas de negócios do evento dedicado ao mercado documental.

Além disso, a produção recebeu apoio da RioFilme. Um contrato firmado em dezembro de 2023 destinou R$ 800 mil para a realização da obra. Já a produção ficou a cargo da TvZero, com coprodução do Canal Brasil.

Na versão exibida pelo Festival do Rio, o longa tem 75 minutos. Wagner divide o roteiro com Clarice Saliby, que também assina a montagem. Já Roberto Berliner, Sabrina Garcia e Leo Ribeiro aparecem entre os produtores, enquanto a fotografia reúne Saulo Nicolai, Julio Constantini e Renato Carlos.

Wagner Novais tem presença dupla no Festival do Rio

Turma 101 não é o único trabalho de Wagner presente na edição de 2026. O cineasta também dirige o curta documental Cadu Barcellos – Cria Não Morre, Vira Lenda, selecionado para a mostra Itinerários Únicos da Première Brasil. A obra homenageia o cineasta Cadu Barcellos, da Maré, e procura celebrar sua trajetória para além da violência que marcou sua morte.

A relação de Wagner com histórias produzidas a partir das periferias cariocas também atravessa sua própria formação. Ele começou no audiovisual na Cidade de Deus e, posteriormente, codirigiu com Manaíra Carneiro o episódio Fonte de Renda, do longa 5x Favela – Agora por Nós Mesmos. O filme integrou a seleção oficial do Festival de Cannes em 2010.

Agora, mais de uma década depois, o cineasta retorna ao centro de uma grande mostra brasileira contando uma história que começa justamente onde sua trajetória pessoal e profissional também começou.

Após a première mundial de sexta-feira, Turma 101 volta à programação neste sábado (3), às 16h15, no Estação Claro Rio 5, em sessão aberta ao público seguida de debate com mediação de Flávia Cândida. O documentário também terá exibição no domingo (4), às 13h45, no Cinesystem Belas Artes Botafogo 5.

Quer acompanhar Turma 101, os filmes da Première Brasil e todos os destaques do Festival do Rio 2026? Acompanhe o Bastidores Cine também no Instagram: @bastidorescine!

Ícone Mais Lidas Veja também
Ícone Mais Lidas Mais lidas

PUBLICIDADE