Richarlison acusa golpe de Flávio Bolsonaro e pede investigação da PF

Richarlison acusa golpe de Flávio Bolsonaro e pede investigação da PF. Foto: Redes Sociais, Globo/Manoella Mello

Richarlison voltou às redes sociais para falar sobre a disputa envolvendo um imóvel de alto padrão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, e direcionou novas cobranças a Flávio Bolsonaro (PL). Em vídeo, o atacante afirmou que gastou cerca de R$ 10 milhões na propriedade, disse que ainda não recebeu o dinheiro de volta e pediu ajuda à Polícia Federal para esclarecer o caso. A disputa judicial, porém, ocorreu entre empresas ligadas ao jogador e a Willer Tomaz, advogado e amigo de Flávio; o candidato à Presidência não figurou como parte no processo.

“Só quero receber o que é meu”, afirmou Richarlison. Na sequência, o jogador sustentou que não queria vender o imóvel e voltou a questionar a maneira como perdeu os direitos sobre a área. “Eu não quis vender a ilha para ele. Como eu não quis vender, os caras pegaram lá na mão grande a ilha”, declarou.

Porém, o caso jurídico é mais complexo do que uma compra convencional de uma ilha particular. A área fica em terreno costeiro sujeito ao regime patrimonial da União e envolve direitos de ocupação e posse, além de registros na Secretaria do Patrimônio da União (SPU).

Richarlison diz ter gasto R$ 10 milhões e cobra ressarcimento

No novo desabafo, Richarlison voltou a dizer que sua principal reivindicação financeira não é necessariamente recuperar o imóvel.

“Eu estava resolvendo a papelada na Justiça, resolvendo a documentação da posse da ilha. Eles falaram que demorava meses e até anos para resolver essa papelada”, afirmou.

Além disso, o atacante reclamou da diferença de tratamento que acredita ter ocorrido durante os procedimentos administrativos. “Eu não recebi nada. Gastei em torno de 10 milhões e não recebi nada. Nesse caso, a Justiça foi falha, porque para a gente foi uma coisa e para os caras foi outra”, disse.

Essa não foi a primeira manifestação pública do jogador. Em julho, ele já havia escrito que gastou aproximadamente R$ 10 milhões no local e que seguia sem receber o valor. Mais recentemente, também respondeu a uma publicação nas redes sociais com a pergunta: “E a minha ilha?”

Documentos mostram diferença na tramitação da SPU

Uma parte da reclamação de Richarlison encontra paralelo em documentos revelados pela Folha de S.Paulo. Entretanto, os registros exigem uma correção importante em relação à afirmação de que toda a regularização teria ocorrido em menos de 24 horas.

Segundo a reportagem, a empresa ligada a Willer Tomaz protocolou o processo de transferência na SPU em 11 de maio de 2022. Depois, pagou a taxa de transferência em 7 de julho. Já em 11 de julho, às 11h33, apresentou um pedido manual para emissão da Certidão de Autorização para Transferência. A SPU emitiu essa certidão às 13h13 do mesmo dia, ou seja, menos de duas horas depois. Porém, considerando todo o procedimento, a tramitação durou 61 dias.

Ao mesmo tempo, um pedido relacionado à empresa de Richarlison aguardava análise desde 20 de setembro de 2021. Quando questionada pela Folha, a SPU não explicou a razão da diferença entre as duas tramitações. A própria documentação enviada ao deputado Rogério Correia (PT-MG) indicou problemas para identificar imediatamente se o imóvel do pedido ligado ao jogador estava devidamente cadastrado.

Portanto, existe uma diferença documentada de andamento entre os procedimentos. Por outro lado, os registros disponíveis não sustentam que todo o processo de Willer Tomaz tenha começado e terminado em menos de 24 horas.

Qual é a relação de Flávio Bolsonaro com o caso?

Flávio Bolsonaro não integrou como parte a disputa judicial pela posse do imóvel. O nome dele apareceu porque a defesa ligada ao grupo de Richarlison o indicou como testemunha. Além disso, Flávio visitou a mansão em 2021 ao lado de Willer Tomaz, ocasião em que, segundo informações dos autos relatadas pelo UOL, Tomaz teria sido informado de que o imóvel já havia sido negociado com a empresa ligada ao atleta.

A assessoria de Flávio já negou qualquer participação na transação.

Segundo a resposta enviada ao UOL, o senador “não comprou, vendeu, intermediou e nem possui qualquer vínculo com o imóvel em questão”. A equipe também afirmou que associá-lo diretamente à disputa seria “factualmente infundado e eleitoralmente motivado”.

Ainda assim, a proximidade entre Flávio e Willer Tomaz tornou-se outro ponto de interesse público. A Folha registrou viagens dos dois juntos e informou que Flávio tentou apoiar o nome do advogado para uma vaga no Conselho Nacional de Justiça em 2022. O candidato afirma que mantém com Tomaz uma relação de amizade e nega sociedade ou participação empresarial conjunta.

Disputa terminou com posse reconhecida à empresa de Willer

A briga judicial se estendeu por aproximadamente três anos. Depois de decisões desfavoráveis ao grupo ligado a Richarlison e tentativas de recurso, partes que originalmente defendiam a posse vinculada ao jogador desistiram da disputa em 2025.

No documento de encerramento citado pelo UOL, elas reconheceram a WT Administração de Imóveis e Bens S.A., ligada a Willer Tomaz, como titular dos direitos de ocupação e posse conforme os registros patrimoniais. Depois disso, o caso transitou em julgado e acabou arquivado.

Assim, não existe decisão judicial dizendo que Flávio Bolsonaro “tomou a ilha” de Richarlison. O que existe é uma disputa que terminou favoravelmente à empresa de um amigo próximo do senador, além das dúvidas levantadas posteriormente sobre a diferença de tramitação dos processos administrativos.

Richarlison pede ajuda à Polícia Federal

Apesar do encerramento judicial, Richarlison agora quer ampliar a discussão.

“Peço ajuda à Polícia Federal para estar investigando”, declarou o jogador.

Antes mesmo dessa nova fala, o deputado Rogério Correia (PT-MG) já havia apresentado à PF uma notícia-crime pedindo apuração de possíveis irregularidades na transferência dos direitos de ocupação. A iniciativa parlamentar, contudo, não significa por si só que a Polícia Federal tenha confirmado irregularidades ou responsabilizado Flávio Bolsonaro pelo caso.

Além disso, a SPU não havia esclarecido à Folha por que os pedidos ligados aos dois grupos tiveram tratamentos administrativos tão diferentes. Esse ponto permanece entre as principais questões levantadas sobre o episódio.

Richarlison pede que capixabas cobrem Flávio

Natural de Nova Venécia, no Espírito Santo, Richarlison também usou o vídeo para convocar os capixabas a cobrarem explicações diretamente de Flávio durante a passagem do candidato pelo estado.

No entanto, há uma diferença de data em relação à fala do jogador. A agenda atual colocou Flávio em Vitória neste sábado (17), em um ato do chamado “Bloquinho do 22”. Depois, ele segue para Salvador.

Já no domingo (18), a programação divulgada prevê Flávio em São Paulo. Pela manhã, ele participa de um ato na Avenida Paulista e, à noite, enfrenta Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no debate presidencial da Band.

A nova manifestação de Richarlison, portanto, reacende um caso já encerrado na esfera judicial, mas que ainda produz questionamentos públicos sobre a tramitação administrativa dos direitos de ocupação. Enquanto o atleta pede que a PF investigue e afirma ter perdido cerca de R$ 10 milhões, Flávio nega qualquer participação na compra, venda ou intermediação do imóvel.

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