A entrevista de Flávio Bolsonaro (PL) à TV Globo, na noite desta sexta-feira (16), teve momentos de insistência de Renata Lo Prete sobre temas como segurança pública, financiamento do filme Dark Horse, os ataques de 8 de Janeiro, a relação do candidato com o STF e sua mudança de posição sobre o fim da escala 6×1. Em um dos trechos de maior tensão, a jornalista repetiu uma pergunta sobre a retirada da identificação de munições e encerrou o assunto afirmando: “Candidato, eu entendi que fiquei sem resposta.”
A sabatina aconteceu nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, e integra a cobertura do segundo turno presidencial. Lula havia participado da mesma série na quinta-feira (15). Além disso, os dois candidatos ainda têm debates programados antes da votação de 25 de outubro.
Lo Prete insiste sobre identificação de munições
Um dos principais embates surgiu quando Renata questionou Flávio sobre seu apoio a uma mudança que retiraria a exigência de identificação de determinadas munições adquiridas por forças de segurança.
A jornalista perguntou como a retirada dessa marcação poderia contribuir para o combate ao crime organizado. Flávio, porém, direcionou a resposta para outros pontos da política de segurança, como endurecimento de penas, combate à impunidade, uso de tecnologia e inteligência artificial.
Em seguida, o candidato minimizou o ponto específico levantado por Lo Prete.
“Isso é muito maior do que qualquer detalhezinho desse em cima de uma cápsula. A polícia tem que investigar”, afirmou.
Renata retomou a pergunta. Como Flávio novamente não explicou de que maneira eliminar a marcação ajudaria as investigações, ela encerrou o bloco: “Candidato, eu entendi que fiquei sem resposta sobre a questão de retirar a marcação das munições.”
A marcação citada pela jornalista não identifica automaticamente quem efetuou um disparo. No entanto, o Estatuto do Desarmamento determina que munições compradas por determinados órgãos públicos tenham identificação do lote e do adquirente. Assim, investigadores podem usar essa informação para rastrear a origem de munições encontradas em cenas de crimes e apurar eventuais desvios.
A discussão legislativa também se relaciona ao PL 3.723/2019, apresentado pelo Poder Executivo durante o governo Jair Bolsonaro para alterar regras do Estatuto do Desarmamento. A Câmara registra que a proposta seguiu para análise do Senado.
Flávio nega tentativa de golpe no 8 de Janeiro
Outro momento de confronto aconteceu quando a entrevista chegou aos ataques de 8 de janeiro de 2023.
Flávio defendeu punição para quem depredou patrimônio público ou agrediu policiais. Porém, rejeitou a interpretação de que participantes dos atos tenham integrado uma tentativa de golpe.
“Não dá para dizer que uma senhorinha, um cara com um algodão-doce no meio da manifestação está tentando dar golpe. Uma senhorinha ia sentar na cadeira de presidente e o povo ia começar a cumprir?”, questionou.
Em outro momento, acrescentou: “O golpe que está acontecendo hoje é o Lula no poder.”
A interpretação apresentada pelo candidato diverge do entendimento adotado pelo Supremo Tribunal Federal em diferentes julgamentos. O STF condenou réus pelos crimes de tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, entre outros, e entendeu que grupos envolvidos nas invasões buscavam derrubar o governo eleito em 2022.
Por outro lado, a Corte não tratou todas as pessoas relacionadas aos acontecimentos de forma idêntica. Até agosto de 2025, o STF informava 279 condenações por crimes considerados graves, 359 por crimes menos graves e dez absolvições, além de acordos firmados com pessoas acusadas de condutas de menor gravidade.
Durante a própria sabatina, Flávio também declarou que respeitará o resultado da eleição independentemente de vencer ou perder.
Caso Dark Horse volta ao centro da entrevista
Renata também dedicou parte da conversa ao financiamento de Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.
Flávio voltou a defender a operação como uma relação entre agentes privados.
“É um pedido de patrocínio privado para um filme privado”, afirmou.
Além disso, ao tentar contextualizar a relação de Daniel Vorcaro com outros negócios, o candidato citou dentro da própria Globo um suposto investimento de R$ 160 milhões relacionado a um programa de Luciano Huck. Flávio já havia usado essa comparação anteriormente, mas a cifra aparece publicamente como uma afirmação do próprio candidato, e não como comprovação de sociedade entre Huck e Vorcaro.
Lo Prete, porém, voltou às contas do filme.
Reportagens anteriores apontaram que as tratativas com Vorcaro chegaram a aproximadamente R$ 134 milhões, enquanto cerca de R$ 61 milhões teriam sido efetivamente repassados. Já uma perícia privada contratada pela defesa da produtora declarou custo total próximo de R$ 75 milhões para a obra.
Além disso, parte dos recursos passou pelo Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. A Polícia Federal ainda investiga o caminho e a origem do dinheiro e pediu mais prazo ao STF para realizar novas diligências.
Por isso, Renata perguntou por que, se não existia nada irregular, as informações completas sobre o financiamento ainda não haviam chegado ao público.
“Se não há nada a esconder, por que não trabalhar para que essas informações cheguem ao público?”, cobrou.
Flávio disse que houve um contrato que não se cumpriu integralmente e sustentou que os recursos eram lícitos e privados. Entretanto, não detalhou durante a entrevista o caminho completo do dinheiro enviado ao fundo norte-americano.
Lo Prete interrompe tentativa de ligar Vorcaro a Lula
Durante a resposta sobre Dark Horse, Flávio tentou ampliar a discussão e relacionar Daniel Vorcaro a Lula.
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Renata, então, interrompeu a linha de argumentação e observou que a pergunta apresentada não continha fatos que sustentassem aquela relação específica. Depois, pediu que o candidato permanecesse no tema do financiamento do filme.
O episódio ocorreu em meio a uma investigação ainda aberta. Nesta sexta-feira, a Polícia Federal pediu mais 90 dias para concluir diligências sobre remessas ao exterior, documentos financeiros e outros elementos ligados ao caso.
Ainda nesta semana, o liquidante do Banco Master informou à Câmara que não encontrou nos registros do banco documentação que caracterizasse os recursos destinados a Dark Horse como patrocínio ou financiamento formal da instituição.
Flávio chama Alexandre de Moraes de “articulador” de Lula
Outro trecho da entrevista teve como alvo o Supremo Tribunal Federal.
Flávio acusou Alexandre de Moraes de atuar politicamente em favor do presidente e afirmou:
“Alexandre de Moraes virou o articulador do Lula. Estão todos unidos para a reeleição do Lula.”
Em outro momento, também atribuiu ao ministro participação na reaproximação política entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
A fala constitui uma acusação política do candidato. Flávio não apresentou, durante a entrevista, evidências de que Moraes participe da articulação da campanha eleitoral de Lula.
Além disso, Alexandre de Moraes não chegou ao STF por indicação do petista. O então presidente Michel Temer indicou Moraes à Corte em fevereiro de 2017 para ocupar a vaga aberta após a morte de Teori Zavascki. O Senado aprovou o nome, e Moraes tomou posse em março daquele ano.
Flávio diz que abriria mão da reeleição
Renata também pressionou o candidato sobre sua proposta de acabar com a possibilidade de reeleição presidencial.
Flávio defende uma mudança constitucional que poderia ampliar o mandato presidencial de quatro para cinco anos e, ao mesmo tempo, impedir uma nova candidatura consecutiva.
A jornalista, então, quis saber se ele manteria o compromisso mesmo caso o Congresso acabasse com a reeleição, mas decidisse preservar o mandato de apenas quatro anos.
“Abriria, sim”, respondeu.
Depois, afirmou que os detalhes caberiam ao Legislativo e acrescentou: “Eu só preciso de um mandato para consertar este país.”
Flávio também declarou que pretende aplicar a restrição a familiares até o terceiro grau em uma sucessão imediata, caso consiga aprovar a proposta.
Mudança sobre escala 6×1 também entra na sabatina
A jornada de trabalho foi outro ponto de cobrança.
Antes da votação no Senado, Flávio havia chamado a discussão sobre o fim da escala 6×1 de “inoportuna e eleitoreira” e apontado riscos de aumento de custos e desemprego. Porém, nesta semana, ele votou a favor da mudança.
O Senado aprovou a proposta por 75 votos a 1, reduzindo a jornada semanal e garantindo duas folgas sem redução salarial. Flávio acompanhou a maioria.
Na Globo, ele justificou a mudança:
“Eu votei baseado nas ruas. Eu segui a vontade da maioria dos trabalhadores do Brasil.”
Além disso, disse que percorreu o país e ouviu apoio majoritário entre trabalhadores. Contudo, logo depois, relacionou a folga adicional a problemas que, segundo ele, continuariam sem solução.
“Com mais um dia de folga, você vai continuar andando no ônibus e sendo assaltado”, afirmou. Depois, citou ainda endividamento e perda de poder de compra.
Renata perguntou também se um eventual governo Flávio tentaria reverter a mudança. Dessa vez, ele respondeu que não e afirmou que respeitaria a decisão do Congresso e os direitos trabalhistas definidos pelo novo texto.
Sabatina teve cobranças repetidas sobre respostas do candidato
Ao longo da entrevista, Lo Prete retomou perguntas quando considerou que Flávio havia deslocado a resposta para outro tema. O episódio mais explícito aconteceu justamente na discussão sobre rastreamento de munições, quando ela registrou diante do candidato que não havia obtido a explicação solicitada.
Ao mesmo tempo, Flávio aproveitou diferentes respostas para criticar Lula, o STF e políticas do atual governo, enquanto apresentou propostas para segurança, economia e reforma institucional. A entrevista ocorreu a pouco mais de uma semana do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro.
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