Tony Ramos relembra medo do DOPS durante ditadura: “Era difícil”

Tony Ramos relembra medo do DOPS durante ditadura: “Era difícil”. Foto: Nadja Kouchi/Acervo TV Cultura

Tony Ramos se emocionou ao recordar os efeitos da censura sobre seu trabalho durante a ditadura militar no Brasil. Em entrevista ao Roda Viva, exibida pela TV Cultura na segunda-feira (28), o ator contou que chegou a apresentar uma peça diante de censores para conseguir autorização e revelou o temor que cercava a possibilidade de ser chamado ao DOPS. A participação marcou a edição especial pelos 40 anos do programa.

A lembrança surgiu enquanto Tony falava sobre sua experiência no teatro com Quando as Máquinas Param, texto de Plínio Marcos no qual contracenou com Walderez de Barros. O próprio ator registra esse trabalho entre os momentos decisivos de sua trajetória nos palcos.

Segundo ele, a montagem precisou passar por uma sessão diante de dois censores, que acompanhavam o texto enquanto os atores representavam.

“A gente estava ali sendo julgado por duas pessoas para ver se podia ou não ser montada a peça”, recordou.

Tony Ramos relata medo de ser chamado ao DOPS

O processo, segundo Tony Ramos, não terminava na avaliação do espetáculo. A vigilância também provocava insegurança entre os artistas que trabalhavam naquele período.

“Você não queira saber as dores internas que isso provocava, os temores, as inseguranças. Tinha sempre uma frase: ‘Pelo amor de Deus, nós estamos fazendo uma peça teatral. Daqui a pouco vai ser proibido fazer Shakespeare’, né?”, afirmou.

Na sequência, o ator citou diretamente o temor de receber uma convocação do Departamento de Ordem Política e Social.

“Então, o medo era que, de repente, você fosse chamado para ir ao DOPS. ‘Dr. Fleury quer falar com você’, que era uma frase que corria: ‘Cuidado com Fleury’”, contou.

A referência era a Sérgio Paranhos Fleury, delegado que integrou o DOPS paulista a partir de 1968 e teve atuação destacada na repressão política durante a ditadura. Registros históricos também o associam a operações envolvendo graves violações de direitos humanos.

“Ninguém me contou esse filminho”

Tony deixou claro que falava a partir de uma experiência vivida pessoalmente, e não apenas de acontecimentos que conheceu posteriormente.

“Então, ninguém me contou esse filminho, né? Nós vivenciamos esse filme. Era difícil”, disse.

A censura prévia atingiu diretamente o trabalho de artistas durante o regime. Documentos preservados pelo Arquivo Nacional mostram que peças teatrais eram submetidas à análise de censores, com pareceres, certificados, trechos rasurados e até avaliações de ensaios gerais. O acervo reúne milhares de dossiês produzidos entre 1968 e 1988.

Plínio Marcos esteve entre os dramaturgos atingidos por esse sistema. Em 1971, por exemplo, um parecer censório recomendou a proibição de Dois Perdidos numa Noite Suja, mesmo depois de a peça já ter recebido autorização anteriormente.

Ao terminar a lembrança, Tony demonstrou emoção ao falar sobre o período.

“Me toca lembrar, me emociona lembrar aquela emoção legítima da dor passada. Então, é inacreditável trabalhar sob censura. É impossível imaginar, no século XXI, você ter censura de novo”, declarou.

Durante a mesma entrevista, o ator também relembrou outro episódio envolvendo censores: uma cena de nudez de seu personagem Márcio em O Astro, novela de 1977. Segundo Tony, Daniel Filho, Janete Clair e a TV Globo tiveram de negociar a sequência antes que ela recebesse autorização para ir ao ar.

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