PayDay Report liga Huck a programa do governo Trump

PayDay Report liga Huck a programa do governo Trump. Foto: TV Globo/Reprodução, Redes Sociais

Luciano Huck entrou no centro de uma nova controvérsia política nesta semana. O site norte-americano PayDay Report publicou uma investigação sobre as relações entre o RenovaBR e um programa do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

O veículo afirma que essa aproximação ocorreu durante o governo de Donald Trump. Além disso, sustenta que ela precisa ser analisada dentro do contexto das Eleições 2026 no Brasil.

O RenovaBR contesta essa interpretação. A organização afirma que nunca recebeu dinheiro de governos estrangeiros para interferir nas eleições brasileiras.

Entretanto, outro episódio ampliou o debate. Poucas semanas antes do primeiro turno, Huck divulgou no Domingão com Huck a plataforma eleitoral Tem Meu Voto.

O apresentador chamou a ferramenta de “gratuita e apartidária”. Porém, o RenovaBR integrava a coalizão responsável pelo projeto.

Depois da divulgação na Globo, usuários começaram a questionar os resultados. Muitos relataram que a ferramenta apresentava forte presença de candidatos de direita e centro-direita.

Poucos dias depois, o próprio projeto saiu do ar.

Diretor do RenovaBR participou de programa dos Estados Unidos

A investigação do PayDay Report parte de um fato confirmado pelo próprio RenovaBR.

Rodrigo Matsumoto Cobra, diretor-executivo da organização, participou do International Visitor Leadership Program, o IVLP. O Departamento de Estado dos Estados Unidos promove o programa.

Cobra viajou ao país em 2026 e representou o Brasil e o RenovaBR durante a agenda.

Além disso, ele relatou publicamente que participou de discussões sobre eleições, democracia e campanhas políticas. A programação também abordou financiamento eleitoral e liberdade de imprensa.

O PayDay Report afirma que o governo norte-americano pagou despesas ligadas à participação de Cobra.

Segundo o veículo, a agenda também incluiu temas como liderança política e comunicação eleitoral. Além disso, participantes conheceram estruturas relacionadas à organização e à segurança das eleições.

A partir disso, o jornal construiu uma interpretação mais ampla.

Segundo a reportagem, a administração Trump teria criado um canal de influência política por meio de lideranças conectadas ao processo eleitoral brasileiro.

Nesse cenário, o PayDay Report coloca Luciano Huck como uma figura relevante. Afinal, o apresentador mantém relação pública e antiga com o RenovaBR.

Porém, há um ponto fundamental. Não existe prova pública de que Huck recebeu dinheiro diretamente do governo Trump.

Também não há comprovação de que o Departamento de Estado tenha determinado qualquer ação eleitoral ao apresentador.

RenovaBR nega financiamento estrangeiro

Depois da repercussão, o RenovaBR divulgou uma nota de esclarecimento.

A organização afirmou que nunca recebeu recursos financeiros do governo dos Estados Unidos. Além disso, disse que não recebeu dinheiro de nenhum outro governo estrangeiro.

Segundo a entidade, Rodrigo Cobra participou apenas de um programa internacional de intercâmbio.

O RenovaBR também negou que a viagem tenha financiado candidatos ou campanhas eleitorais.

Além disso, a organização delimitou a relação com Huck.

Segundo o grupo, o apresentador apoia o RenovaBR desde a fundação. Porém, ele não ocupa cargo na entidade.

Ainda segundo o RenovaBR, Huck não participa da gestão cotidiana. Ele também não toma decisões institucionais.

Mesmo assim, o apresentador ajudou publicamente a projetar iniciativas ligadas ao grupo ao longo dos últimos anos.

Huck divulgou Tem Meu Voto no Domingão

Um desses episódios aconteceu no próprio Domingão com Huck.

Em 27 de setembro, uma semana antes do primeiro turno, Huck apresentou o Tem Meu Voto aos telespectadores da Globo.

O apresentador interrompeu a programação para explicar o funcionamento da plataforma.

“Semana que vem é eleição, né? O Brasil vota para presidente da República, governador, senador, deputado federal e deputado estadual”, começou.

Em seguida, Huck apresentou o serviço.

“Queria falar sobre uma plataforma que é gratuita e apartidária. Ela dá um ‘match’ entre eleitor e candidato e chama Tem Meu Voto”, afirmou.

Depois, ele explicou que o usuário responderia perguntas sobre diferentes temas.

A ferramenta comparava essas respostas com posições de candidatos ao Legislativo. Assim, apresentava percentuais de compatibilidade. Huck ainda reforçou o caráter supostamente neutro do projeto.

“É apartidário, não indica candidato, não indica voto. A decisão é do eleitor”, declarou.

RenovaBR integrava grupo responsável pelo site

O Tem Meu Voto não pertencia exclusivamente ao RenovaBR. A ferramenta fazia parte da Coalizão pelo Voto Consciente. O grupo reunia 14 organizações. Entre elas estava o próprio RenovaBR.

Além disso, representantes da entidade afirmaram que as organizações participantes colocaram estrutura, equipe e reputação no projeto. Portanto, existe ligação direta entre o RenovaBR e a plataforma divulgada por Huck. Porém, não há comprovação de que o RenovaBR tenha financiado sozinho todo o projeto.

O ponto mais preciso é outro. O grupo participava da estrutura que sustentava a iniciativa eleitoral.

Usuários acusaram plataforma de favorecer nomes da direita

Depois da exposição no Domingão, começaram as críticas nas redes sociais.

Usuários publicaram testes feitos dentro do Tem Meu Voto. Alguns afirmaram que responderam às perguntas com posições progressistas.

Mesmo assim, receberam candidatos de direita entre as maiores compatibilidades. A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) também criticou a ferramenta. Além disso, pediu que autoridades eleitorais analisassem o caso.

Porém, dizer que o sistema “só recomendava políticos de direita” exige cuidado. Uma análise realizada na Bahia encontrou um problema objetivo na base utilizada pelo site.

Naquele momento, apenas três dos 643 candidatos a deputado estadual tinham alguma posição disponível em determinado teste. Além disso, 52 das 146 respostas identificadas pertenciam a candidatos do partido Novo.

Com isso, a ferramenta comparava eleitores com um universo bastante limitado. Na prática, essa falta de diversidade poderia produzir resultados distorcidos. Por isso, um eleitor de esquerda poderia receber candidatos de direita entre os melhores percentuais. Isso não prova, sozinho, que alguém programou o algoritmo para favorecer esse campo político.

Entretanto, mostra que a plataforma tinha um problema concreto de representatividade.

Projeto saiu do ar após as críticas

Três dias depois da divulgação feita por Huck, o Tem Meu Voto saiu do ar.

A Coalizão pelo Voto Consciente reconheceu que não conseguiu reunir uma base suficientemente diversa de candidaturas. Além disso, admitiu que essa deficiência prejudicava a eficácia da ferramenta. Ou seja, o próprio grupo responsável reconheceu que a comparação não funcionava como deveria.

Esse ponto se tornou especialmente relevante porque Huck havia apresentado o site como “apartidário” diante de milhões de pessoas. Além disso, a divulgação aconteceu na reta final do primeiro turno.

O Ministério Público Federal também abriu uma apuração sobre o episódio. O procedimento analisa se a divulgação feita por Huck e pela Globo violou alguma regra eleitoral.

Entretanto, a abertura da apuração não significa que o apresentador ou a emissora tenham cometido uma irregularidade.

PayDay coloca Huck dentro de uma rede de influência

É justamente nessa sequência que o PayDay Report constrói sua principal acusação.

Segundo o veículo, Huck funcionaria como um vetor de influência política devido à sua projeção nacional.

Além disso, o jornal destaca sua relação histórica com o RenovaBR. O veículo conecta essa relação à participação de Rodrigo Cobra no programa do governo dos Estados Unidos.

Depois, cita a divulgação do Tem Meu Voto na Globo durante o período eleitoral. Assim, o PayDay Report apresenta os acontecimentos como partes de uma mesma rede de influência política.

Porém, essa é uma interpretação jornalística do veículo norte-americano. Até agora, não existe prova pública de que Trump ou seu governo tenham ordenado Huck a promover o RenovaBR.

Também não há evidência de que o governo norte-americano tenha determinado a divulgação do Tem Meu Voto no Domingão.

Ainda assim, alguns elementos estão confirmados.

Cobra participou de um programa do Departamento de Estado durante o governo Trump.

Além disso, ele representou o RenovaBR nessa agenda.

Huck mantém relação histórica com a organização.

Por fim, o apresentador divulgou uma plataforma eleitoral ligada a uma coalizão que incluía o RenovaBR.

Relações levantam novas perguntas

O caso ainda deixa questões importantes em aberto.

Quanto o governo dos Estados Unidos gastou com a participação do diretor do RenovaBR?

Houve alguma cooperação posterior entre a organização e representantes norte-americanos?

Qual é hoje o grau de participação de Luciano Huck em projetos ligados ao RenovaBR?

Além disso, quais critérios a Globo adota quando um apresentador divulga uma ferramenta eleitoral em seu programa?

Essas perguntas não provam interferência estrangeira.

Porém, ajudam a delimitar pontos que ainda precisam de esclarecimento público.

O RenovaBR mantém sua negativa de financiamento eleitoral estrangeiro. Enquanto isso, o PayDay Report sustenta que a relação precisa de investigação mais profunda.

Já o episódio do Tem Meu Voto continua documentado. Huck divulgou a ferramenta no Domingão. O RenovaBR integrava a coalizão responsável. Depois, a própria organização retirou o site do ar por falta de diversidade suficiente entre os candidatos participantes.

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