Especialista critica estereótipos sobre África e relata ataques na web

Especialista critica estereótipos sobre África e relata ataques na web
Especialista critica estereótipos sobre África e relata ataques na web. Foto: Arquivo Pessoal

A consultora em letramento racial Tainara Ferreira criticou conteúdos de influenciadores brasileiros sobre ações missionárias na África. Depois disso, ela relatou ter recebido ofensas e até ameaças nas redes sociais.

A discussão ganhou força após publicações da influenciadora Sthe Matos durante uma ação missionária no continente africano. Nos registros, a blogueira apareceu ao lado de crianças, mas não informou o país onde esteve.

Para Tainara Ferreira, o problema não está na realização da ação. Porém, ela questiona a forma como determinados conteúdos apresentam a África ao público.

Especialista critica imagem de pobreza associada à África

Segundo a consultora, algumas publicações acabam reduzindo o continente à pobreza, carência e necessidade de ajuda.

No entanto, a África reúne 54 países reconhecidos internacionalmente. Além disso, cada território possui histórias, idiomas, religiões e realidades sociais diferentes.

Por isso, Tainara Ferreira defende que influenciadores contextualizem melhor os lugares que visitam.

“Eu fiz uma crítica, sem juízo de valor sobre a pessoa, sobre a intenção dela ou sobre a ação realizada”, afirmou.

Segundo ela, a publicação gerou forte reação nas redes sociais. Além disso, a especialista diz ter recebido mensagens ofensivas e ameaças.

“Isso demonstra justamente o quanto ainda temos dificuldade de conversar sobre racismo e representação”, declarou.

Conteúdo humanitário também pode reproduzir estereótipos

Na avaliação da consultora, uma ação humanitária pode ter uma intenção legítima. Porém, a maneira de transformá-la em conteúdo também precisa entrar no debate.

Além disso, Tainara Ferreira alerta para o risco de usar a pobreza apenas como cenário para gerar engajamento.

“Uma pessoa pode fazer uma ação humanitária genuína e, ao mesmo tempo, reproduzir uma visão colonial sobre aquele território”, explicou.

Para ela, o problema cresce quando a narrativa ignora a cultura e a diversidade local. Dessa forma, o público pode receber uma visão limitada sobre toda uma região.

A especialista também menciona influenciadores que já divulgaram plataformas de apostas e, depois, passaram a compartilhar expedições humanitárias. Segundo ela, essa mudança exige ainda mais responsabilidade na comunicação.

Tainara Ferreira defende letramento racial para equipes

Além dos influenciadores, Tainara Ferreira também cobra preparo de agências, assessorias e equipes de marketing.

Na prática, ela acredita que esses profissionais precisam entender racismo, colonialismo e representação antes de construir determinadas campanhas.

A consultora também aponta falhas históricas na educação brasileira como parte do problema.

Dados da PNAD Contínua 2025 indicam que milhões de brasileiros ainda enfrentam dificuldades relacionadas à alfabetização. Por isso, Tainara avalia que debates mais complexos também encontram barreiras de compreensão.

“A falta de letramento faz com que muitas pessoas se apeguem exclusivamente ao ato humanitário”, afirmou.

Segundo ela, realizar uma boa ação não impede questionamentos sobre a forma de apresentar aquela experiência.

Leis brasileiras também tratam do ensino dessas histórias

O debate sobre representação também aparece na legislação brasileira. A Lei 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira.

Depois, a Lei 11.645/2008 ampliou a exigência para incluir também História e Cultura Indígena.

Com isso, Tainara Ferreira defende que o conhecimento ultrapasse as escolas e chegue também às redes sociais.

Para a especialista, figuras públicas precisam compreender o peso das imagens que compartilham. Além disso, devem evitar transformar territórios complexos em cenários simplificados.

“Estou dizendo que precisam estudar, entender o território para onde estão indo”, declarou.

Mesmo após os ataques que afirma ter recebido, Tainara Ferreira disse que pretende continuar discutindo o tema.

“Sigo na minha missão por mais que ela seja dolorosa e solitária às vezes”, concluiu.

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