O ator Bukassa Kabengele vive um momento de grande sucesso em sua carreira. Atualmente no ar em três produções distintas, as novelas “A Nobreza do amor”, da TV Globo, e “Dona Beja”, na HBO Max, além da série “Emergência Radioativa”, da Netflix, ele mostra diferentes facetas de seu talento para o público.
Realeza e representatividade na novela das 18h
Na trama da emissora carioca, o artista interpreta José dos Santos, príncipe herdeiro do reino de Batanga que abdica do trono por amor. O personagem trabalha como engenheiro civil no Brasil e acolhe a família em Barro Preto. Na história, o ator repete uma parceria de sucesso com a atriz Ana Cecília Costa, com quem trabalhou em Amor Perfeito.

O diretor artístico Gustavo Fernandez convocou o profissional assim que recebeu o projeto da novela. Para construir o nobre africano, o ator buscou inspiração na própria história de vida e na infância. Ele nasceu em Bruxelas, mas possui origem legítima na República Democrática do Congo.
O astro abriu o coração sobre a construção desse papel tão marcante na TV.
“José/Zambi é príncipe, filho de Kayman I, seria o herdeiro e Rei do reino de Batanga na sucessão do trono. Mas se apaixonou por Teresa, uma plebeia, quando veio ao Brasil. Ele abdicou do trono e escolheu viver esse grande amor refugiado em Barro Preto. É um homem íntegro, altivo, engenheiro e entusiasta da ciência”, afirma Bukassa Kabengele.
O artista trouxe toda a sua bagagem cultural para o set de gravação. “Minha criança interna e educação são africanas. Sou filho de um grande intelectual, o Professor Kabengele Munanga, antropólogo e professor titular aposentado na USP. Carrego esse DNA da africanidade e consciência negra. Quando cheguei ao Brasil, com 10 anos, fui morar em Natal até meus 12 anos, depois mudei para São Paulo. Então para a construção de Zambi tive toda a soma da preparação de elenco, afinidade com os colegas e construção do meu olhar em anos de vida e carreira me entendendo quanto corpo e alma africana e cidadão negro engajado nas questões de luta contra o racismo”, relata o ator.
A Nobreza do Amor

O convite do diretor artístico trouxe muito orgulho para a caminhada do profissional. “Todos dentro da indústria no audiovisual brasileiro sabem de minha origem e história de alguma maneira. Isso dá uma grande relevância e legitimidade. Numa das conversas com o diretor artístico Gustavo Fernandez ele me disse: “Assim que chegou o projeto, disse que Bukassa teria que estar dentro”. Isso me deixa honrado, são anos de trabalhos e hoje um reconhecimento e respeito por partes muito importantes dentro da indústria no audiovisual brasileiro”, relembra.

A sintonia fina com o par romântico também ajuda a construir as nuances da história. “Tenho muito respeito e admiração pela Ana Cecília Costa. Adoro seu trabalho e acho que foi uma boa escolha da direção esse encontro. A gente conversa muito e acha os melhores caminhos para a construção de um amor profundo e paixão de um casal mais velho que se admira e enfrenta um mundo todo juntos. Portanto levamos para cena nossas experiências de vida para além da técnica. Cuidamos das nossas visões sócio-político e dos detalhes para humanizar a relação do casal interracial e a frente de seu tempo, nesses recortes dentro da narrativa”, revela.
A novela busca romper com velhos paradigmas sobre a ancestralidade negra. “Queremos com essa história devolver a dignidade e reconstruir as imagens negativas narradas por anos sobre a história da negritude no Brasil. Ao mostrar parte dessa fábula narrada com bases históricas e pesquisas de que a escravidão não é base real para validação da riqueza negra brasileira. Isso é um ótimo começo para a revolução na televisão brasileira. Certamente um divisor de águas nesse sentido. Estamos tratando a África (Batanga) e suas riquezas, começando pela Realeza, de forma positiva na trama. Dando visibilidade a mulher negra e corroborando para o investimento em um mundo imaginário que conversa com nossa realidade no mundo contemporâneo onde tivemos diversas lutas para tornar nossa sociedade mais justa e igualitária. Onde os abismos sociais estão atravessados por dores profundas, vestidas pela manta do racismo, seus recortes e privilégios da branquitude”, complementa.
Casamento interracial e conflitos em Dona Beja

Na produção de época da HBO Max, o veterano interpreta o poderoso Coronel Paulo Sampaio. O fazendeiro é pai do personagem do ator David Junior, o par romântico da protagonista da história. Ele vive um casamento complexo e cheio de aparências com a preconceituosa Ceci, vivida por Deborah Evelyn.
A dondoca destila racismo na trama, mesmo sendo casada e tendo filhos negros. A megera também combate a liberdade da personagem principal, interpretada pela estrela Grazi Massafera.
O ator detalhou a carga dramática do ricaço da novela de streaming. “Ele é um homem rico que lutou com garras para manter a sua família forte e unida, mas as circunstâncias de um tempo difícil ao ver a família se desintegrar o levam as últimas consequências”, explica.
O artista faz um paralelo cirúrgico sobre os debates sociais propostos pelo roteiro. “Isso é muito mais comum do que imaginamos. Para responder isso eu devolvo com uma outra pergunta para elucidar o meu pensamento. Por acaso, dentro do casamento “heteronormativo”, os homens deixaram de ser machistas por serem casados com mulheres? No Brasil o índice de feminicídio está entre os mais altos do mundo. Algo intolerável em qualquer nível. Então a trama dá luz a algo muito comum e que precisa ser elucidado. As violências do racismo estão também dentro das famílias de casamentos interraciais, tal qual o machismo nos casamentos entre homens e mulheres. Isso precisa ser debatido e confrontado”, analisa.
A parceria com a colega de elenco nos bastidores rendeu ótimos frutos durante as gravações.
“É uma grande relação de respeito mútuo e admiração. Entendemos juntos a necessidade de vestir os personagens com sua a complexidades para juntos e individualmente pudéssemos contar nossas histórias na trama. Adoro essa atriz experiente e incrível em tudo que ela faz. É uma honra trabalhar com ela. Sou muito grato”, elogia.
A nova versão da produção traz uma roupagem muito mais moderna e necessária. “Acredito que queremos ressignificar o olhar para a mulher. Dando a protagonista caráter de heroína, trazendo visibilidade a uma mulher trans e colocando personagens negros em lugares destaque e protagonismo. Trazendo um olhar diverso ao significado de família… O que é e como pode ser uma família. O autor Daniel disse no lançamento em São Paulo que a versão anterior era “Dona Beija”, o que dava uma noção da mulher como desejo e objeto, já em “Dona Beja” ela virada substantivo, como uma pessoa e não um objeto. São escolhas com olhares focados num mundo de pessoas preocupadas em mudar paradigmas dos lugares injustos para mulheres, negros e indígenas. A arte nesse sentido pode ajudar contando de forma diferente a normalização da falsa ideia de que são grupos menos capazes e não merecedores de dignidade nas construções sócias”, observa.
Tragédia radioativa e cinema nacional

Já na plataforma da Netflix, o público confere o trabalho do astro na série Emergência Radioativa. O roteiro se inspira no trágico caso real do Césio-137 em Goiânia. O veterano interpreta o ambicioso Evenildo, dono do ferro velho onde se inicia o acidente.
Na produção, o profissional contracena com grandes talentos como Johnny Massaro, Leandra Leal, Ana Costa, Paulo Gorgulho e Tuca Andrada. Ele também divide os episódios com os atores Alan Rocha e William Costa, que interpretam seus irmãos.
O ator detalhou os bastidores desse drama denso e marcante.
“O Evenildo faz parte das pessoas que foram contaminadas pelo Césio-137… Ele, e sua família, tiveram perdas irreparáveis. Ele é dono de um ferro velho, uma pessoa ambiciosa que quer o melhor para seu povo. Toda a contaminação começa na casa dele, sem que ele saiba”, conta.
A oportunidade de trabalhar com outros talentos negros trouxe muita alegria para as gravações. “Eu adoro Alan Rocha com quem já trabalhei em “Amor Perfeito” na Globo, William conheci nessa produção. Adoro trabalhar com parceiros negros porque acho importante não sermos apenas “UM”, precisamos ser plurais e múltiplos nessa saga que é colocar atores a atrizes negras dentro das visibilidades do mercado no audiovisual. Amei estar perto deles. Muita troca diálogo e respeito sem falar do afeto”, celebra.
Do cinema para o streaming

O artista também comemora o excelente fluxo de convites para o cinema e para o streaming. “Desde que fiz “El President”, na Amazon, ainda na pandemia, quando passei quatro meses no Uruguai e ao voltar para o Brasil até agora tenho emendado trabalhos sem parar. Acho que de alguma forma produtores de elenco, diretores e autores me reconheceram quanto profissional e ator, me dando cada vez mais espaço por mim conquistado e reconhecido pelo público a cada projeto de que posso contribuir para nossa cultura dentro da indústria. O que me fortalecer é convencer a me entregar cada vez mais para dar o meu melhor Excelência é um caminho individual e coletivo para nossas lutas e conquistas pra o povo negro. Aqui defendo brasileiros e africanos”, compartilha.
Além dos trabalhos na TV e nas plataformas digitais, o público confere em breve o talento do ator nos cinemas. O astro integra o elenco principal do novo filme do cineasta Jeferson De intitulado Narciso. No longa, ele interpreta Joaquim, um homem simples que comanda um lar temporário de crianças.
A trama acompanha o drama emocionante de um menino negro que enfrenta o fantasma da rejeição.
“É um lindo filme de Jeferson De, um dos nossos maiores diretores de cinema. Joaquim é um homem simples que vive as dores do mundo com todos os nossos recortes. De forma altiva e positiva. Somos sobreviventes e sempre achamos no meio do caos um sorriso. Esse filme vai emocionar muita gente. Há uma delicadeza e beleza no trato do silêncio na interpretação, direção e fotografia”, adianta o astro.
O enredo toca em feridas profundas da realidade social do nosso país. “A trama também passa por isso. Mas acredito eu que ela nos mostra camadas profundas e complexas dos olhares desse menino em relação como o mundo se apresenta para pessoas negras. Então tem códigos e símbolos que nos atravessam e personagens que abraçam Narciso. Há ali nas linhas invisíveis da trama dores comuns dentro de silêncios e dores vividas por muitos. O filme é lindo e emocionante”, finaliza.
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